Hoje poderia postar sobre o dia estupido que foi, as barbaridades cometidas naquela enfermaria, o stress e os nervos que delas decorreram...
... Mas não. Opto por não arruinar mais o meu dia a pensar como traduzir por palavras toda a frustração que se acumula... Em vez disso, posto um texto que me enviaram para ajudar a restituir o meu humor habitual. Para relaxar e descontrair... Afinal, também é preciso de vez em quando! :)
Boas sensações
O fim do fim-de-semana
Domingo, cair da noite...
Um dia em que se fez um pouco de tudo - relatório para o mestrado, estudo do Harry para a prova nacional de seriação, slides para o trabalho de pneumonias associadas aos cuidados de saúde, abrir a portada para apanhar um bocadinho de sol, ir até à sala para falar 5 minutos com os co-residentes (e ouvi-los barafustar porque a televisão por alguma razão não lhes obedece...), estar no msn para por a conversa em dia com quem já não se vê há uns tempos e dar explicações a quem está a passar por aquilo que eu já passei, ligar a televisão para ver um documentário sobre a triste vida da Marilyn Monroe.... enfim, um pouco de tudo.
E chega a noite de Domingo, uma vez mais. A duas semanas de ser dra., a muitos anos de saber tudo o que uma dra. deve saber, a décadas da reforma.... mas apenas a minutos de me levantar, esticar um pouco as pernas, e ver se me vejo livre desta posição à secretária, que tanto tormenta os meus fins de semana...
Tenho saudades de Sexta feira à tarde. Aquele momento mágico em que se apercebe que se tem 2 longos dias (e meio!) pela frente, com tempo para tudo!... Domingo, cair da noite, tem destas coisas; tira-nos essas ilusões. Os planos cortados a metade, o cansaço que o (pouco) descanso não conseguiu desfazer, a ideia de que talvez se o tempo tivesse sido melhor aproveitado, a coisa teria corrido de maneira diferente...
... Afinal, para onde foram as 48 horas prometidas Sexta feira? Perdidas entre olhares de olhos vidrados para o vazio durante bloqueios a pensar no que escrever num relatório, levantar-me e olhar pela janela a ver as crianças a brincar na praceta à minha frente, fechar os olhos e simplesmente ouvir aquela música que já há muito não se ouvia... Sim, se calhar o tempo foi desperdiçado.
No entanto, olho para a lista de coisas que tinha para fazer, e contento-me a aperceber-me que apesar de muitos itens terem ficado por riscar, outros tantos apresentam-se já riscados, e estou um bocadinho mais perto do meu objectivo final.
Domingo desperdiçado? Acho que não. :)
Hipocrisias
Basta de hipocrisia! Chega!
Está em todo o lado, caramba! Desde os falsos sorrisos, que deixam transparecer o que fica por ser dito, as simpatias traídas pela expressão do rosto, os tons de voz forçados... até às reformulações de códigos deontológicos que deixam a necessidade de preservação da vida humana ao critério de cada um...
O famoso artigo 47 vai (inevitavelmente) ser alterado.
"Código deontológico - artigo 47.º
1. O médico deve guardar respeito pela vida humana desde o seu início;
2. Constituem falta deontológica grave quer a prática do aborto, quer a prática da eutanásia;
3. (...)"
Que tinha de ser alterado, é um facto. Afinal, quando a lei diz uma coisa, e as "leis morais" exigem outra, é porque algo não bate certo... Mas ao menos que alterem a coisa de modo sensato! Pareceu-me ouvir dizer nas notícias (mas não posso garantir... afinal, havia conversa animada à mesa, barulho de talheres a bater contra pratos, cães a ladrar, gatos a miar...), que a alteração efectuada deixaria este ponto em aberto, "ao critério de cada médico".
Não entendo a ética desta ideia. Não consigo perceber... Quando a deontologia é deixada ao "critério de cada um", de que serve existir? "Ah, só é deontologicamente incorrecto caso você não concorde com o aborto.. agora, se você é a favor, faça, sem qualquer peso na consciência, porque nese caso deixa de ser deontologicamente incorrecto!"... a sério que não consigo perceber... Melhor ainda será averiguar se existiu falta deontológica grave, punível, ou se tal não existiu, apenas com base numa pergunta simples - "É a favor do aborto?" (pobre daquele que tiver contribuido para um aborto, e responda "não" a esta pergunta!)
Se calhar estou a simplificar demais as coisas, certamente não se passará desta maneira. Posso até ter percebido mal... Mas ainda assim, com ou sem alteração do código deontológico, com ou sem leis que contribuem para a crescente irresponsabilidade humana, a grande verdade que permanece é que, realmente...
... Longe vão os dias em que o famoso "primum non nocere" estava à cabeceira de cada gesto praticado.
O Catéter de Swan-Ganz
Cateterizar a artéria pulmonar é algo que aparece com alguma frequência no Harry. Hoje, por qualquer razão (talvez este meu gosto retomado pela cardiologia) fez-me pensar - mas como raio é que isso se faz?! - quando me cruzei com mais uma indicação para efectuar tal procedimento.
Eis a imagem que me deu a resposta... E eu pergunto - is this cool or what?! :)
"Cardióloga"
Lembro-me, há muito muito tempo, antes de ter visto os horrores do capítulo de cardiologia do Harry (palavra de honra que se aquilo é inglês, eu preciso de férias, pois para mim é incompreensível!), antes mesmo de ter entrado para o curso, que o grande objectivo era "entrar para medicina, e especializar-me em pediatria ou cardiologia". Mas isso foi há muito tempo. Quando olhar para crianças me fazia sorrir (coisa que não se perdeu ao longo do curso), e quando pensar num órgão tão poético como é o coração me fascinava...
Quando tive cardiologia, aquela primeiríssima aula no 5º ano, sentada num anfiteatro juntamente com apenas 2 ou 3 colegas mais (um exame aproximava-se, e a malta estava a estudar), o fascínio pelo coração aumentou. "Wow!", pensei eu. O professor era genial, daqueles que dá gosto ouvir, pois o entusiasmo e o verdadeiro gosto pela profissão se tornam contagiantes! Depressa dei por mim a vibrar com aquelas matérias. Os "lub-dubs" cardíacos, os "luuffff-dub" dos sopros sistólicos, toda aquela sinfonia de sons imitados... Simplesmente Wow!
Mas o estágio prático revelou-se fraquito. Metade da equipa de médicos estava de férias, culminando com grande grupos de alunos encostados a paredes (certamente não cairiam enquanto houvesse alunos de medicina a segurá-las!) a "aprender" toda a magia daquele orgão - isto acabou inevitavelmente por lhe tirar a magia toda. As aulas teóricas ainda valiam a pena, mas as práticas, se existiram, eu não dei por elas passar.
E hoje, encontro-me no fim de um curso sem saber nada que preste de cárdio. Entristece-me, mas a tristeza é superada de longe pela frustração que é olhar para páginas de cardiologia do Harry e tentar decifrar o que eu suspeito ser indecifrável.
Mas hoje, num momento de menor lucidez, talvez, deram-me um tratado de cardiologia. Assim... "Ah, já tenho este livro... alguém o quer?", pergunta um interno. Inevitavelmente aceitei... e vim no comboio a esfolhear, a absorver aquelas imagens de corações pintados, e ECGs traçados... e novamente, aquele Wow! inicial foi substituindo a fobia cardiológica que se foi instalando ao longo das leituras do Harry.
Dizem-me que eu seria uma excelente Clínica Geral (especialidade que agora encanta os meus dias!). Mas também há quem diga que, se eu tiver boa nota no exame de acesso à especialidade, acabarei por escolher outra coisa qualquer. Eu digo prontamente que não, que o internamento me satura, que as consultas é o que eu mais gosto, que o facto de seguir doentes de todas as idades, e acompanhá-los na evolução das suas vidas é realmente o que mais me fascina.
... Mas hoje, ao ver aqueles capítulos enumerados num índice de um tratado de cardiologia despertou novamente o fascínio que ainda existe pelo coração. Talvez não considere tirar a especialidade de cardiologia (afinal, penso que um bom cardiologista deve ao menos COMPREENDER o capítulo de cárdio do harry!), mas não tenho dúvidas que o meu novo livro vai ser lido com um interesse que não encontro para ler outros que tenho pousados na prateleira, à espera de atenção...!
Surpresa
"Então, e já sabes quando ele cá vem?"
Esta pergunta ouve-se com muita frequência. Esboço um sorriso semi-envergonhado, e lá vou respondendo vagamente. Porquê vagamente? Nem eu sei muito bem... acho que o vagamente acaba por desencorajar a pessoa de continuar conversa, e assim ganho algum controlo sobre o misto de emoções que se aglomeram todas ali, no mesmo espaço, tempo e pessoa.
Quando é que ele cá vem, então? Também eu gostava de saber... aponto para uma data indefinida algures nesta página de calendário. "É surpresa", é a resposta que recebo quando eu próprio faço a pergunta. E eu vou contando os dias, em contagem decrescente sem prazo definido.
E, enquanto isso, vou-me entretendo a sonhar acordada aqui e ali, a pensar nos momentos que já foram, e a fazer planos para os que ainda estão por vir. Dou por mim a sorrir sozinha, enquanto faço as coisas mais banais. Com vontade de apressar a passagem do tempo, e ao mesmo tempo com algum nervosismo face ao momento que está prestes a chegar.
....
Once in awhile,
Right in the middle of an ordinary life,
Love gives us a fairy tale.
~ Anonymous ~






