A equipa: 1 chefe de serviço desaparecido em trabalhos burocráticos, 1 especialista de medicina interna, 1 interna do geral, 1 interna do ano comum (IAC)
A missão: 24 horas, 43 doentes em maca no SO, 21 altas, 20 entradas, transferências... perdi a conta.
A protagonista: er... eu... qualquer semelhança com o boneco reside única e exclusivamente na expressão fac... er... "focinhal" =)
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8:00
Doentes?! Quantos são, quantos são?! Bora lá a eles! Vá lá! Temos um dia grande pela frente! Vamos aos doentes! É hoje que eu vou salvar o banco do seu estado caótico! Eu consigo! Eu sei que sim! Doentes para entrar? Venham eles! Doentes para saír? Dê aí o processo, trato já disso! Fez RX? Está na TC? Tem uroculturas? Faz amiodarona? Bora lá trabalhar! IUPIIII! Hoje tou num dia SIM! ISto hoje vai correr maravilhosamente bem! Vamos por música! Vamos ver doentes! VAmos trabalhar! Mais uma entrada? Dê aí o processo, trato disso logo a seguir!
12:00
Ah, e tal, e análises, e... é pá, tenho fome. Ninguém tem fome? E que tal uma pausa? Tou farta! Olha lá, já vi um, dois três, quatro... quatro doentes! E internei outro, e dei a alta a outro. Está na altura de uma pausa, não acham? Que tal? Paramos 10 minutinhos, é o tempo que demora a vir o resultado da gasimetria... depois é só passar! Não têm fome?.. Olha, mais outra entrada! Sim, eu vejo a seguir. Mas primeiro comer, pode ser? Só ali buscar umas bolachinhas, comemos depois aqui na sala...
15:00
...uff ufff! Vim a correr! Ainda dá para almoçar?! A sério! óptimo!!
15:20
Estamos de volta. Bom, trabalhar, não é?... É pá, impressão minha, ou isto está a ficar desorganizado?
16:00
Eh pá... que coisa mais estranha neste resultado das análises... Ou calma. Se calhar sou eu que já não estou a raciocinar bem. Ca raio... Será que isto é verídico? Ó céus... como eu não percebo nada disto. O que raio é que estou para aqui a fazer?... Devia-me ir dedicar à pesca. O quê?! Foi transferido? E vai entrar mais outro? Agora?!... Será que o banco não acaba?... Bom, trabalhar, né? Pode ser que entretanto apareça alguém mais competente e que me explique isto... que sinceramente... que coisa mais estranha.
18:00
A sra. Enfermermeira está à procura de um processo? Qual processo? Eu não vi nenhum processo! Eu... aqui? Nah! Certamente que não é o processo que procura! Este processo é MEU! MEU!.... pode ser? :)
18:30
MAS QUEM É QUE TIROU O DOENTE DO LUGAR?! E AGORA?! PARA ONDE É QUE ELE FOI?! E CADÊ O PROCESSO?!?!?! ARGH!!!
22:00
Estou cansada...
23:00
Estou cansada... estou farta disto....
24:00
Estou cansada... estou farta disto... quero ir para casa....
01:00
Estou cansada... estou farta disto... quero ir para casa... quero ir dormir...
(...)
07:30
Estou cansada... estou farta disto... quero ir para casa... quero ir dormir... tenho fome... tenho sede... quero respirar ar puro... quero ir para casa... estou farta... tenho frio... ah, espera, não, até nem tenho frio... mas a equipa de substituição já chegava... vá lá... só mais meia hora...
09:30
Os doentes foram vistos. As altas foram dadas. As transferências foram feitas. A equipa de substituição já chegou, já se passaram os doentes, já estou de volta ao cacifo, estou a tirar a bata, cheiro o café a vir do bar e...
... calma! Espera lá! Sobrevivi?! :O
WOW!!! Mais uma história de sucesso no decorrer destas 24 horas de banco impossíveis!! WOW!!! I SURVIVED!!! =)
E mais uma vez a "heróia" da história sai de um banco feliz e contente com a vida. Lamúrias do fim do dia? Já foram todas esquecidas! Aliás, alguma vez existiram?! Nah, nem pensar! Foi o máximo! Bancos? Venha o próximo! Eu estou cá para aguentar! =)
E viva a equipa maravilha!
Mission Impossible - part I
Desleixo
Ou então falta de imaginação. Tanto faz. O que é certo e sabido, e como já devem ter reparado, é que o velho blog está a enfrentar dias críticos no que toca a periodicidade de publicação de posts. É a vida. Às vezes também faz falta parar um bocadinho.
Eu não vou mentir. Todos os dias venho ao blogger, e todos os dias passo uns 2-3 minutos a pensar "o que vou postar hoje?"... Ultimamente, nada vem à mente. Os eventos do dia não merecem relato especial, as botas que teimo em comprar teimam em não estar à venda (o que se passa com as botas este ano, que eu não encontro nenhumas de jeito?!), o estudo... bom, esse era bom que existisse, mas não existe (!), o sono já faz parte da rotina diária, os doentes são a pneumonia e o enfarte banal, a equipa de médicos continua fantástica como sempre, o chefe de serviço continua fielmente a pagar-me o café todos os dias, os internos que partilham comigo longas horas de bancos lá continuam, os amigos distantes, distantes estão, os amigos não tão distantes estão agora em época de exames, ou a trabalhar, ou desaparecidos, ou... sei lá...!, os assuntos cardíacos (isto é, do coração -> romanticos, portanto) estão estagnados, recuados, e mais uns tantos "-ados" que prefiro não partilhar, o tempo está uma miséria (e diga-se de passagem que já desperdicei demasiados posts com o tempo)... e quando finalmente se decide caír granizo, estou num corredor do hospital sem janelas, e com 6 pisos em cima de mim (isto é, toda a gente fala de granizo que eu não vi (nem ouvi!) caír... é triste!). Enfim... como podem ver, os temas esgotam-se, e os posts ficam por escrever, por falta de conteúdo. Miséria... =)
Talvez seja a vida que de um momento para o outro ganhou nova forma (fui recentemente acusada de "ter, finalmente, uma vida"), ou se calhar o entusiasmo perante "o mundo lá fora" impede-me de dar grandes atenções ao "mundo cá dentro". Ou se calhar saturei, simplesmente. Ou ainda, existe também a possibilidade de eu estar a ficar velha, oficialmente. Quem sabe? Eu não sei certamente. Sei que não tenho andado muito iluminada, isto é, tenho andado sem ideias brilhantes para postar. Isto eventualmente acabará por passar. Até lá, aturem um blog semi-estagnado. Ou então façam como eu - arranjem uma vida, e dediquem-se a ela, em vez de se dedicarem a blogs estagnados como este! =)
Até breve!
Faltam poucos dias...!
Foi hoje! Entrei oficialmente na semana em que espero (!!) receber o meu primeiro ordenado! Fruto do meu suor, euros que surgem como compensação pelos meus (muitos) esforços para com a sociedade! =) Finalmente pronta para começar a sustentar-me a mim própria, contando ainda, no entanto, com o sustento dos outros no que toca a habitação, alimentação e outros "-çãos" que compõem toda uma vida. Mas já com uma conta bancária prestes a atingir valores nunca antes alcançados, com mais um dígito que o habitual!
Planos? Existem muitos, e variados! Afinal, gastá-lo custa bem menos que ganhá-lo! Cafés são garantidos (basta porem-se a jeito, que eu ofereço!), mas o grosso deverá ser poupado - afinal, os planos são, na sua maioria, a longo prazo.
Mas ainda assim, vai dar gozo analisar aquele meu primeiro ordenado, descobrir de onde veio cada um dos cêntimos que o compõem. Das horas previstas? Das horas extraordinárias? Dos bancos aos fins de semana? Das noites? Dos dias?
... e o entusiasmo continua! :) hehehe!
500 miles
Porque é que esta música totó não me sai da cabeça?! Bom, já que eu tenho de a aturar, aturem-na vocês também! ;)
Bom fim de semana a todos!
A minha orquídea
Assim, sem mais nem menos, finalmente, depois de muitos anos a mirá-las... decidi comprar uma para mim! A minha própria cymbidium! E mais, foi uma orquídea oferecida! Pois no momento em que ía pagar, não me deixaram. Quiseram oferecer-me. Acharam-me digna de um presente por razão nenhuma, sem data especial a celebrar. E foi tão bom...!
Tenho, portanto, uma linda orquídea. E é minha! =)
Quando tudo o resto se esgota...
O que fazer quando as opções deixam de existir? Quando existe vontade de ajudar, mas somos incapazes?
Ontem de manhã deu entrada na enfermaria um doente. Velho, novo... importa?! É um ser humano. Isso basta para ser necessário ajudar a todo o custo. Suspeita de AVC, mas com algumas peças de informação que simplesmente não encaixavam no quadro típico do AVC, e um TC sem vestígios de tal coisa. Degradação do estado de consciência - primeiro, de dia para dia, depois, de hora para hora, finalmente de minuto para minuto. Bradicárdias de 30 batimentos por minuto. Poderia ser esta a causa? Põe-se pacemaker. O coração começa a bater mais depressa, mas o estado de consciência continua a caír. Teria sido um AVC posterior, que o TC se recusa a detectar com tanta facilidade? Pedir uma ressonância magnética. Mas não pode ser - já tem o pacemaker, já não pode fazer a ressonância. Meningite, talvez? Está com febre, os parâmetros inflamatórios estão aumentados, e existe uma possível rigidez da nuca, que mais faz lembrar uma anquilose que um sinal meníngeo. Mas há que pensar nessa possibilidade. Fazer punção lombar. Mas a respiração já não aguenta o posicionamento para a punção. Ventilar. Sim, parece a melhor opção. Aquela respiração, aqueles periodos de apneia... este homem precisa de um ventilador. Mas o único disponível de momento estava prestes a ser usado numa jovem com mal asmático. Não existem ventiladores.
Que fazer, então? Agora quando as opções se esgotaram? Esperar? Deixar a natureza tratar do resto? Algures, existirá uma família, filhos, netos, amigos... Que hão-de eles pensar ao ver o doente neste estado, quando ele tinha entrado 3 dias antes na urgência, com uma confusão. Autónomo. Uma simples desorientação, que foi evoluindo para uma incapacidade de falar, às tantas, algures, uma infecção respiratória, uma alteração do estado da vigília, um estupor, um coma... umas apneias.
Tratar empiricamente. Combater AVC's invisíveis e meningites sem agente isolado. Empiricamente. Mas aquela respiração....
Fui para o banco. Passei o banco a pensar neste senhor. Às 3 da manhã regresso à enfermaria. Ver o doente. Ver que nada melhorou. A mesma respiração difícil, as mesmas apneias, agora já não reage sequer a estímulos dolorosos. Um estado de coma.
Eram 07:30 quando voltei a passar por lá. A cama estava agora ocupada por uma senhora. Uma pneumonia. Igual a tantas outras.... ou será?
Ao saír da enfermaria, deparo-me com o neto. "O hospital telefonou... disse para eu vir com urgência.... o meu avô faleceu?"
...
... Como explicar que de vez em quando, tudo se esgota...? Deparamo-nos com a ausência de opções. Com a ausência de exames, de métodos, de medicamentos. Esperar. E deixar a natureza tomar o seu curso...






